El Salvador vs Medellín ou violência versus injustiça social mostra o embate que define o futuro da América Latina

Violência versus injustiça social é o dilema que separa duas apostas radicalmente diferentes na América Latina. De um lado, El Salvador, sob Nayib Bukele, trocou direitos civis por índices de segurança. Do outro, Medellín, na Colômbia, provou que educação, inclusão social e transporte público também derrotam o crime — sem abrir mão da democracia. Mais do que nunca, é preciso entender os números, os métodos e os riscos de cada modelo.

Dois países, duas respostas para o mesmo problema

Nas últimas duas décadas, a América Latina enfrentou uma epidemia de violência urbana. Gangues, narcotráfico e Estados fracos criaram um terreno fértil para o medo.

Diante desse cenário, surgiram duas respostas opostas.

El Salvador escolheu o punho de ferro. Medellín escolheu a reconstrução social. Ambas reduziram homicídios. Mas o preço pago foi completamente diferente.

Entender essa diferença é essencial para qualquer debate sério sobre segurança pública, direitos humanos e o futuro das democracias latino-americanas.

O modelo Bukele: segurança às custas da democracia

Desde março de 2022, El Salvador vive sob um regime de exceção decretado pelo presidente Nayib Bukele. A medida, criada para combater as maras (gangues), suspendeu garantias constitucionais básicas.

O que mudou no país

Entre as principais consequências documentadas por organizações de direitos humanos, estão:

  • Prisão preventiva obrigatória para determinados crimes, mesmo sem provas concretas
  • Sigilo total sobre a identidade de operadores da Justiça, dificultando fiscalização
  • Detenções em massa, muitas classificadas como arbitrárias por entidades internacionais
  • Extensão de penas e criminalização ampliada, incluindo aplicação a adolescentes
  • Crescimento expressivo das Forças Armadas dentro da estrutura de segurança interna

Segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, divulgado em setembro de 2024, o regime de exceção segue sendo prorrogado indefinidamente desde sua criação, sem previsão de retorno à normalidade institucional.

Segundo dados oficiais citados pela revista Foreign Affairs, os homicídios caíram de 2.398 em 2019 para 114 em 2024. A publicação observa, porém, que os números reais podem ser superiores aos registros oficiais. A queda é expressiva, mas, sozinha, não permite avaliar a qualidade do sistema de segurança nem o respeito ao devido processo.

O custo humano do regime de exceção

Investigações de organizações como Cristosal documentam mortes sob custódia estatal, denúncias de tortura e o abandono de crianças cujos responsáveis foram presos sem processo justo.

Grupos vulneráveis — mulheres, população LGBTQIA+ e defensores de direitos humanos — aparecem como alvos recorrentes de intimidação, segundo relatório da SSPAS divulgado em 2024.

A queda nos índices de homicídio é real. Mas o preço, segundo especialistas, é a erosão silenciosa do Estado de Direito.

O dilema central do modelo salvadorenho

A pergunta que fica é simples e desconfortável: é legítimo sacrificar garantias democráticas em nome da segurança?

Para defensores de Bukele, sim. A população sente as ruas mais seguras.

Para organismos internacionais, o modelo cria um precedente perigoso: normaliza abusos de poder sob o pretexto do combate ao crime, algo que outros líderes autoritários da região já tentam replicar.

A questão central não é negar o impacto da violência na vida cotidiana. Para moradores que enfrentavam ameaças e extorsões, a sensação de segurança pode ter melhorado de forma concreta. O debate é se esse resultado pode ser mantido sem a suspensão prolongada de garantias e sem mecanismos eficazes para corrigir erros.

A Human Rights Watch relata detenções arbitrárias em massa, violações do devido processo, maus-tratos e mortes sob custódia. A organização também aponta concentração de poder e deterioração de instituições democráticas. Essas denúncias exigem investigação independente e não devem ser confundidas com uma avaliação de que toda pessoa detida seja inocente ou de que a violência das gangues não seja real.

Em 2025, a Washington Office on Latin America informou que o regime de exceção havia se tornado uma política prolongada, acompanhada de encarceramento em massa. A organização também destacou o risco de tratar uma medida emergencial como solução permanente.

Uma política de segurança confiável precisa responder a perguntas difíceis: como identificar suspeitos com provas? Como corrigir detenções injustas? Quem fiscaliza abusos? E o que acontece quando a emergência deixa de ter prazo?

O milagre de Medellín

O milagre de Medellín: segurança construída com investimento social

Enquanto El Salvador apostou na repressão, Medellín escolheu o caminho inverso: reduzir violência atacando suas raízes — pobreza, exclusão e ausência do Estado.

Medellín: segurança também se constrói com inclusão

Medellín viveu um passado marcado por narcotráfico, homicídios e desigualdade profunda. Sua transformação não foi obra de uma única política nem ocorreu de uma hora para outra. Ao longo de diferentes gestões, a cidade combinou investimentos públicos, planejamento urbano, projetos sociais e medidas de segurança.

Um dos símbolos mais conhecidos é o Metrocable, sistema de teleféricos integrado ao transporte público. As linhas conectaram bairros de encosta, historicamente afastados dos principais serviços e oportunidades, ao restante da cidade. A integração com o metrô facilitou o deslocamento para trabalho, estudo, atendimento e atividades culturais.

Mas a contribuição do transporte não se resume a reduzir o tempo de viagem. Quando uma comunidade isolada passa a ter acesso mais fácil à cidade, diminuem algumas barreiras que aprofundam a exclusão. A mobilidade pode ampliar escolhas e aproximar moradores de serviços, empregos e espaços públicos.

A estratégia urbana também incluiu equipamentos comunitários, escolas, bibliotecas, espaços de convivência e intervenções em bairros vulneráveis. Esses investimentos não substituem o trabalho policial ou a investigação criminal. A ideia é atuar sobre fatores que favorecem a violência e fortalecer a presença cotidiana de serviços públicos.

O Banco Mundial descreveu a transformação de Medellín como uma abordagem integrada de prevenção à violência e desenvolvimento urbano. Segundo a instituição, a taxa de homicídios da cidade caiu mais de 80% em relação aos níveis extremos de décadas anteriores, chegando a 20 por 100 mil habitantes em 2015. Esse dado é histórico, não uma estatística atual, mas não significa que a cidade tenha se tornado livre do crime.

De cidade mais violenta do mundo a referência global

Nos anos 1990, no auge da guerra entre Pablo Escobar e o Estado colombiano, Medellín chegou a registrar mais de 6 mil homicídios em um único ano, com taxa de 400 por 100 mil habitantes — a mais alta já vista no planeta.

Em 2024, a cidade fechou o ano com apenas 319 homicídios, uma taxa de 11,81 por 100 mil habitantes, a menor em quatro décadas, segundo dados da prefeitura local.

Isso representa uma queda superior a 90% em relação ao pico da violência.

As estratégias que mudaram a cidade

O chamado milagre de Medellín não aconteceu por acaso. Ele resultou de décadas de políticas públicas consistentes, entre elas:

  • Parques Biblioteca construídos em bairros historicamente abandonados pelo poder público
  • Teleféricos e transporte público integrado, conectando comunidades periféricas ao centro econômico da cidade
  • Investimento pesado em educação e cultura para jovens em situação de vulnerabilidade
  • Reconhecimento do papel político de grupos criminosos, permitindo negociações que reduziram confrontos
  • Mesa de Paz Urbana, iniciativa recente que já contribuiu para queda de 16% nos homicídios e 13% na extorsão no Valle de Aburrá, segundo dados do governo colombiano

Um exemplo de urbanismo social

O caso mais emblemático é a Comuna 13, antigo território de confronto armado, hoje transformado em polo turístico e cultural, com escadas rolantes públicas que facilitam o acesso de moradores ao topo do morro.

Segundo o professor Julian Andrés Muñoz Tejada, da Universidade de Antioquia, o sucesso de Medellín não veio apenas da infraestrutura, mas do reconhecimento de que grupos criminosos exerciam funções que o Estado historicamente negligenciou — e substituir essas funções, em vez de simplesmente reprimir, foi decisivo.

Violência versus injustiça social: qual lição fica?

Comparar os dois modelos revela uma verdade incômoda: reduzir violência é possível por caminhos opostos. Mas as consequências de longo prazo são muito diferentes.

Dois caminhos diferentes, com limites importantes

Comparar El Salvador e Medellín pode ser útil, desde que não se trate os casos como experimentos equivalentes. El Salvador é um país que enfrentava o controle territorial de gangues e escolheu uma resposta nacional centrada em detenções e poderes excepcionais. Medellín é uma cidade que desenvolveu intervenções urbanas e sociais ao longo de anos, em um contexto institucional e histórico diferente.

A comparação ajuda a identificar duas dimensões da segurança pública.

A resposta imediata busca interromper ameaças, proteger vítimas e recuperar áreas sob domínio criminoso. Sem segurança básica, moradores podem não conseguir estudar, trabalhar ou circular livremente.

A prevenção duradoura procura reduzir vulnerabilidades, fortalecer vínculos comunitários, ampliar oportunidades e garantir acesso à justiça. Sem ela, operações policiais podem conter crimes por um período, mas não necessariamente eliminar as condições que alimentam o recrutamento e a violência.

Uma política equilibrada não precisa escolher entre segurança e direitos. Ela deve proteger a população e, ao mesmo tempo, submeter as autoridades à lei, permitir a contestação de decisões e investigar abusos. Direitos fundamentais não são um obstáculo à segurança: são parte dos critérios que distinguem uma resposta legítima de um poder sem controle.

O que outras cidades podem aprender

As experiências de El Salvador e Medellín oferecem lições, não fórmulas prontas. Importar uma política sem considerar o contexto local pode produzir resultados diferentes ou agravar problemas.

Uma estratégia consistente de prevenção da violência deve combinar:

  • Proteção imediata, com policiamento responsável, investigação e atendimento às vítimas.
  • Acesso à justiça, para que acusações sejam analisadas com provas, e decisões possam ser revistas.
  • Serviços públicos próximos, especialmente em regiões com pouca oferta de transporte, educação e espaços comunitários.
  • Participação dos moradores, que conhecem as necessidades locais e podem ajudar a definir prioridades.
  • Transparência e avaliação, com dados verificáveis sobre homicídios, desaparecimentos, detenções, condenações e mortes sob custódia.

Também é essencial evitar uma conclusão simplista: queda nos homicídios não apaga violações de direitos, assim como investimentos sociais não eliminam, por si só, a atuação de grupos criminosos. A segurança precisa ser medida pela redução da violência e pela capacidade das instituições de proteger todos os cidadãos.

A injustiça social, quando ignorada, alimenta a violência. Mas combater a violência ignorando a injustiça social apenas transfere o problema — de gangues nas ruas para abusos de Estado nas prisões.

Por que esse debate importa para toda a América Latina

Por que esse debate importa para toda a América Latina

Outros países da região observam atentamente os dois modelos. Líderes populistas e/ou retrógrados já mencionam Bukele como inspiração, prometendo réplicas do regime de exceção em seus territórios.

Ao mesmo tempo, urbanistas e gestores públicos de várias cidades latino-americanas estudam o caso de Medellín como modelo de política pública replicável.

A escolha entre os dois caminhos não é apenas técnica. É, sobretudo, uma escolha de valores: que tipo de segurança uma sociedade está disposta a aceitar, e a que preço.

FAQ sobre violência urbana

Bukele reduziu mesmo a violência em El Salvador?

Sim, os índices oficiais de homicídio caíram significativamente desde 2022. Porém, organizações de direitos humanos questionam a forma como esses números foram alcançados, apontando detenções em massa, mortes sob custódia e ausência de devido processo legal.

O que é o regime de exceção em El Salvador?

É um decreto que suspende garantias constitucionais, como o direito à defesa e a prazos legais para prisão, vigente desde março de 2022 e sucessivamente prorrogado pela Assembleia Legislativa a pedido do presidente.

Como Medellín conseguiu reduzir a violência sem repressão extrema?

Através de décadas de investimento em educação, cultura, transporte público integrado e reconhecimento do papel social e político dos grupos criminosos, permitindo negociações e reintegração social.

Medellín ainda enfrenta problemas de segurança?

Sim. Embora os índices tenham melhorado drasticamente, cerca de 25% dos homicídios registrados em 2024 ainda estão ligados a estruturas criminosas organizadas, segundo dados oficiais.

Existe um modelo ideal para combater a violência urbana?

Especialistas defendem que soluções sustentáveis combinam segurança pública eficiente com investimento social robusto, sem sacrificar direitos fundamentais, já que modelos puramente repressivos tendem a gerar custos institucionais e humanos de longo prazo.

Outros países da América Latina estão adotando o modelo Bukele?

Sim, diversos líderes políticos da região já manifestaram interesse em réplicas do regime de excepção salvadorenho, o que preocupa organismos internacionais de direitos humanos.

O que os modelos de segurança devem ter?

É preciso entender o que uma política de segurança precisa alcançar: proteção imediata, justiça e resultados permanentes. Mas justiça não combina com suspensão de direitos civis.

O que fica desse embate

El Salvador mostra que é possível reduzir números de violência através da força, mas ao custo de direitos civis, transparência institucional e garantias democráticas.

Medellín demonstra que investimento social sustentado, ao longo de décadas, pode produzir resultados igualmente impressionantes, preservando a democracia e a dignidade humana.

O verdadeiro combate à violência versus injustiça social não deveria ser uma escolha entre repressão e liberdade, mas um compromisso conjunto entre segurança e direitos.

Qual modelo você acredita ser o caminho correto para as cidades latino-americanas?

Compartilhe sua opinião e continue acompanhando análises como esta para entender os grandes debates que moldam o futuro da região.

Sobre o Autor

Gerson Menezes
Gerson Menezes

Gerson Menezes é escritor, jornalista aposentado com mais de 40 anos de atividade (especialmente nas áreas de Política, de Economia e de assessoria de Imprensa), empresário, ex-professor universitário, empreendedor digital e youtuber. (Mais informações no Menu do Rodapé)

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