Rússia pode ser visitada mesmo em guerra mas exige planejamento

A Rússia continua sendo um dos destinos mais intrigantes e enigmáticos do planeta, mesmo em meio a um cenário geopolítico desafiador. Quando se fala em viajar para o maior país do mundo, a primeira pergunta que surge é inevitável: é realmente possível visitar a Rússia com a guerra em curso? A resposta é: sim. Mas com ressalvas importantes que todo viajante brasileiro precisa conhecer antes de fazer as malas.

Moscou e São Petersburgo seguem de portas abertas para turistas estrangeiros, incluindo brasileiros, que hoje desfrutam de uma vantagem significativa: a isenção de visto para estadias de até 90 dias. Contudo, o contexto do conflito com a Ucrânia impõe desafios logísticos, financeiros e de segurança que transformaram completamente a experiência de visitar o país em comparação com o período anterior a 2022.

Nosso conteúdo sobre Turismo entrega aqui um panorama realista, baseado em fontes oficiais e relatos atualizados, sobre o que esperar ao planejar uma viagem à Rússia em 2026. Das rotas aéreas disponíveis aos cuidados com dinheiro, passando pelas recomendações do Itamaraty e pela realidade das ruas de Moscou, você encontrará tudo o que precisa para decidir com segurança e informação.

O cenário atual: o que mudou para o turista brasileiro

O turismo na Rússia sofreu uma transformação radical desde fevereiro de 2022. O espaço aéreo europeu foi fechado para voos russos, sanções econômicas isolaram o país do sistema financeiro internacional e muitos governos ocidentais passaram a desaconselhar formalmente viagens ao território russo. O Reino Unido, os Estados Unidos e a maioria dos países da União Europeia emitiram alertas máximos contra qualquer deslocamento para lá.

O Brasil, no entanto, adota uma postura diferente. O Itamaraty classifica a situação com um grau moderado de cautela, sem proibir ou desaconselhar formalmente a ida de cidadãos brasileiros. A recomendação oficial é de planejamento cuidadoso, acompanhamento constante dos canais consulares e atenção redobrada às regiões próximas às zonas de conflito.

Na prática, grandes centros urbanos como Moscou e São Petersburgo mantêm uma rotina surpreendentemente normal. Restaurantes funcionam, museus recebem visitantes, o metrô de Moscou opera com sua lendária eficiência e a vida cultural segue pulsante. A distância geográfica entre essas cidades e a fronteira com a Ucrânia supera os 500 quilômetros, o que cria uma separação tangível entre o cotidiano metropolitano e as áreas de operação militar.

Ainda assim, é fundamental compreender que a situação pode mudar rapidamente e que viajar para a Rússia atualmente exige um nível de preparação e consciência situacional muito acima da média de outros destinos.

Apreciando a Rússia

Brasileiros não precisam de visto: a grande vantagem

Uma das notícias mais relevantes para quem sonha em conhecer a Rússia é que brasileiros estão isentos de visto para turismo e negócios por até 90 dias dentro de um período de 180 dias. Esta facilidade, em vigor desde antes do conflito, foi mantida e representa uma simplificação enorme no processo de planejamento.

Para entrar no país, basta apresentar passaporte válido com pelo menos seis meses de vigência a partir da data de entrada. Não há necessidade de carta convite, taxas consulares, entrevistas ou qualquer outro procedimento burocrático prévio para estadias dentro do limite de 90 dias.

É importante destacar que esta isenção vale exclusivamente para fins de turismo e negócios. Quem pretende estudar, trabalhar ou residir na Rússia precisará solicitar o visto correspondente. Além disso, as autoridades russas implementaram desde o final de 2024 a coleta de dados biométricos na fronteira, um procedimento rápido realizado no momento da entrada.

Para outras nacionalidades, especialmente cidadãos da União Europeia e dos Estados Unidos, o processo é significativamente mais complexo, exigindo visto prévio, carta convite e taxas que podem ultrapassar 300 euros. O brasileiro, portanto, parte de uma posição privilegiada nesse aspecto.

Como chegar à Rússia em 2026: as rotas disponíveis

As sanções aéreas impostas pela União Europeia e por outros países ocidentais fecharam o espaço aéreo para companhias russas e cancelaram voos diretos entre a Rússia e a maioria das capitais europeias. Para o viajante brasileiro, isso significa que não há mais voos diretos de Paris, Londres, Frankfurt ou Amsterdã para Moscou ou São Petersburgo.

Felizmente, rotas alternativas se consolidaram e hoje funcionam com regularidade. As principais são:

Via Istambul, na Turquia: esta é a rota mais utilizada e flexível. A Turkish Airlines mantém voos diários de São Paulo e Rio de Janeiro para Istambul, e de lá partem dezenas de voos diários para Moscou, São Petersburgo e outras cidades russas, operados tanto pela Turkish Airlines quanto por companhias russas. A Turquia não aplica sanções contra a Rússia e brasileiros não precisam de visto para fazer escala no país.

Via Belgrado, na Sérvia: a Air Serbia e a Aeroflot operam voos regulares entre Belgrado e as principais cidades russas. O trajeto Brasil-Belgrado costuma ter conexões em Lisboa, Paris ou Istambul. A Sérvia também isenta brasileiros de visto para estadias de até 90 dias.

Via Doha, no Catar: a Qatar Airways oferece conexões de São Paulo para Doha e de lá para Moscou, sendo uma alternativa confortável e confiável.

Via Dubai, nos Emirados Árabes Unidos: a Emirates conecta o Brasil a Dubai, que por sua vez tem voos frequentes para diversos destinos russos.

O tempo total de viagem, incluindo conexões, costuma variar entre 20 e 30 horas, dependendo da rota escolhida e do tempo de escala. Os preços das passagens subiram consideravelmente em comparação com o período pré-guerra, sendo recomendável pesquisar com pelo menos três meses de antecedência.

Dinheiro na Rússia: o maior desafio prático

Se existe um aspecto da viagem que exige planejamento meticuloso, é a questão financeira. As sanções internacionais desconectaram a Rússia do sistema SWIFT e fizeram com que cartões de crédito e débito emitidos no Brasil ou em qualquer país ocidental simplesmente não funcionem em território russo. Visa, Mastercard, American Express e Elo estão todos inoperantes.

Isso significa que o viajante precisa levar dinheiro em espécie. A recomendação atualizada para 2026 é a seguinte:

Leve dólares americanos, de preferência em notas novas e sem marcas, que são mais facilmente aceitas em casas de câmbio russas. Não leve euros. Desde as sanções de 2026, a exportação de notas de euro da zona do euro para a Rússia é proibida e valores podem ser confiscados na fronteira.

Troque uma parte do dinheiro em rublos ainda no país de escala. Istambul e Belgrado são excelentes pontos para fazer o câmbio antes de embarcar para a Rússia. As taxas costumam ser mais favoráveis do que nas casas de câmbio dos aeroportos russos.

Calcule um orçamento diário generoso e leve reserva extra. Não há como depender de saques emergenciais ou transferências bancárias convencionais uma vez dentro do país. Algumas soluções alternativas, como carteiras digitais de criptomoedas e aplicativos específicos de transferência, existem, mas não são recomendadas para o turista comum, pois operam em zonas cinzentas de legalidade e podem falhar sem aviso.

Hotéis de redes internacionais costumam aceitar pagamento antecipado por meio de agências de viagem brasileiras. Para gastos do dia a dia, restaurantes, transportes e ingressos, o dinheiro vivo é indispensável.

Segurança: o que dizem os números e a experiência de quem vai

A pontuação de segurança da Rússia em julho de 2026, segundo o índice IsItSafeToTravel, é de 4.0 em 10, classificada como risco alto e ocupando a posição 238 entre 248 países. O principal fator que puxa essa nota para baixo é o indicador de conflito, com 2.3 em 10. Em contrapartida, a criminalidade comum recebe nota 6.0, indicando um nível moderado, comparável ao de grandes metrópoles brasileiras.

O que esses números revelam na prática é uma realidade de duas camadas. Nas grandes cidades como Moscou e São Petersburgo, o risco de crimes como furto, assalto ou golpes contra turistas existe, mas não é dramaticamente superior ao de destinos como Paris, Barcelona ou Rio de Janeiro. Os cuidados básicos de qualquer viajante experiente costumam ser suficientes: atenção a pertences em locais movimentados, evitar áreas desertas à noite, não ostentar objetos de valor e usar transporte oficial.

Já o risco relacionado ao conflito é mais abstrato para quem está nas metrópoles, mas não é inexistente. Incidentes isolados como ataques de drones e atividade de defesa aérea já foram registrados em regiões mais próximas da fronteira e, em raras ocasiões, até nos arredores de Moscou. São eventos pontuais e imprevisíveis, razão pela qual o monitoramento constante das notícias e a inscrição no portal consular do Itamaraty são providências essenciais.

Convém evitar completamente regiões como o norte do Cáucaso e áreas próximas à fronteira com a Ucrânia, incluindo as cidades de Rostov do Don, Belgorod e Kursk. O mesmo vale para a Crimeia, território anexado cujo status jurídico é contestado internacionalmente.

Palácios

O que ver e fazer: os destinos essenciais

Apesar das dificuldades logísticas, a Rússia entrega uma experiência cultural e histórica de altíssimo nível. Quem decide enfrentar os perrengues é recompensado com alguns dos museus, palácios e catedrais mais impressionantes do mundo.

Moscou, a capital, concentra atrações icônicas como a Praça Vermelha, o Kremlin, a Catedral de São Basílio com suas cúpulas coloridas e o Museu Histórico do Estado. O metrô de Moscou é uma atração à parte, com estações que mais parecem palácios subterrâneos revestidos de mármore, lustres e mosaicos. A Galeria Tretyakov abriga a mais importante coleção de arte russa do mundo.

São Petersburgo, a antiga capital imperial, é um museu a céu aberto. O Hermitage, instalado no Palácio de Inverno, é um dos maiores e mais importantes museus do planeta, com um acervo que rivaliza com o Louvre. A Avenida Nevsky, os canais que rendem à cidade o apelido de Veneza do Norte, o Teatro Mariinsky e os palácios de Peterhof e Tsarskoye Selo completam um roteiro que facilmente ocupa uma semana inteira.

Para quem dispõe de mais tempo, o Anel de Ouro, conjunto de cidades históricas ao redor de Moscou como Vladimir e Súzdal, oferece um mergulho na Rússia medieval. O Lago Baikal, na Sibéria, é a maior reserva de água doce do mundo e um destino de beleza natural estonteante. Ecaterimburgo, nos Urais, e Kazan, capital do Tartaristão, proporcionam perspectivas diferentes da diversidade cultural e geográfica russa.

Melhor época para visitar

A escolha da época é crucial para o conforto da viagem. A Rússia tem invernos rigorosos, com temperaturas que podem cair abaixo de 20 graus negativos em Moscou e São Petersburgo entre dezembro e fevereiro. Para quem não está acostumado ao frio extremo, esse período pode ser desafiador.

A melhor janela climática vai de maio a setembro. Os meses de junho e julho oferecem o fenômeno das noites brancas em São Petersburgo, quando o sol praticamente não se põe e a cidade ganha uma atmosfera mágica. Setembro e outubro trazem o outono russo, com paisagens douradas e temperaturas amenas.

O inverno, apesar do frio, tem seu charme. Moscou coberta de neve, as pistas de patinação no gelo, os mercados de Natal e a atmosfera acolhedora dos cafés e restaurantes oferecem uma experiência que muitos viajantes consideram inesquecível. Basta levar o agasalho adequado.

Seguro viagem e assistência

Contratar um bom seguro viagem não é apenas recomendável; é indispensável. O sistema de saúde russo, especialmente fora dos grandes centros, pode ser de acesso complicado para estrangeiros que não dominam o idioma. Um atendimento médico de emergência sem cobertura pode custar caro e gerar transtornos enormes.

Além da cobertura de saúde, é importante verificar se a apólice cobre situações relacionadas a conflitos ou instabilidade política. Muitas seguradoras incluem cláusulas de exclusão para zonas de guerra ou risco geopolítico elevado, e a Rússia pode se enquadrar nessa categoria dependendo da interpretação contratual. Leia os termos com atenção antes de contratar.

Vale registrar que o governo britânico, por exemplo, alerta que apólices de seguro viagem podem ser invalidadas se o viajante se deslocar para um destino contra a recomendação oficial do seu país. Para brasileiros, essa questão é menos problemática, já que o Itamaraty não emite alerta máximo, mas o ponto merece verificação junto à seguradora.

FAQ: as perguntas mais buscadas sobre viajar para a Rússia em 2026

Brasileiros precisam de visto para entrar na Rússia?

Não. Brasileiros estão isentos de visto para turismo e negócios por até 90 dias dentro de um período de 180 dias. Basta apresentar passaporte com validade mínima de seis meses.

É seguro viajar para a Rússia com a guerra em andamento?

Grandes cidades como Moscou e São Petersburgo mantêm rotina relativamente normal e estão distantes das zonas de conflito. O Itamaraty recomenda grau moderado de cautela, sem desaconselhar formalmente a viagem. Ainda assim, a situação pode mudar e exige monitoramento constante.

Cartões de crédito brasileiros funcionam na Rússia?

Não. Cartões Visa, Mastercard, American Express e Elo emitidos no Brasil estão inoperantes na Rússia devido às sanções internacionais. É preciso levar dinheiro em espécie, preferencialmente dólares americanos.

Qual a melhor rota para ir do Brasil à Rússia?

As rotas mais recomendadas passam por Istambul, na Turquia, ou Belgrado, na Sérvia. Ambos os países não aplicam sanções contra a Rússia e oferecem voos regulares para Moscou e São Petersburgo.

Posso levar euros para a Rússia?

Não é recomendado. Desde 2026, a exportação de notas de euro da zona do euro para a Rússia é proibida e valores podem ser confiscados na fronteira. O ideal é levar dólares americanos.

Qual a melhor época para visitar a Rússia?

De maio a setembro, com destaque para junho e julho, quando ocorrem as noites brancas em São Petersburgo. O inverno oferece paisagens nevadas impressionantes, mas exige preparo para temperaturas extremamente baixas.

Preciso falar russo para viajar?

Não é obrigatório, mas ajuda bastante. Em Moscou e São Petersburgo, hotéis e atrações turísticas costumam ter sinalização e atendimento em inglês. Fora dos centros turísticos, o inglês é bem menos comum. Um aplicativo de tradução e algumas frases básicas fazem diferença.

Quanto custa uma viagem à Rússia saindo do Brasil?

Com a alta das passagens aéreas pelas rotas alternativas e a necessidade de levar dinheiro em espécie, o custo subiu significativamente. Uma estimativa realista para uma viagem de 10 a 15 dias, incluindo passagens, hospedagem, alimentação, transporte e ingressos, gira em torno de 18 a 30 mil reais por pessoa, dependendo do estilo de viagem e da antecedência da compra.

Conclusão: a Rússia ainda vale a pena?

A Rússia não é, em 2026, um destino para o viajante casual ou para quem busca tranquilidade absoluta. Visitar o país exige mais planejamento, mais dinheiro em espécie, mais paciência com rotas aéreas alongadas e mais atenção ao contexto geopolítico do que qualquer outro destino turístico tradicional.

Dito isso, a Rússia também entrega recompensas proporcionais ao esforço. Poucos lugares no mundo oferecem tamanha densidade de história, arte, arquitetura e paisagens naturais. Caminhar pela Praça Vermelha ao entardecer, percorrer os salões do Hermitage, assistir a um balé no Mariinsky ou navegar pelos canais de São Petersburgo durante as noites brancas são experiências que ficam gravadas para sempre.

A chave está na informação. Quem decide ir, deve fazê-lo com os olhos bem abertos: conhecendo as rotas, levando o dinheiro adequado, contratando o seguro certo, mantendo-se atualizado pelos canais oficiais do Itamaraty e respeitando as áreas de risco. Com preparo e cautela, a Rússia continua acessível e fascinante para o viajante brasileiro.

Se este guia foi útil e você está considerando seriamente essa jornada, o próximo passo é começar a pesquisar passagens com antecedência e montar um roteiro que equilibre ambição e realismo. A Rússia de 2026 não é a mesma de 2019, mas para quem está disposto a compreendê-la em sua complexidade atual, a viagem pode ser uma das mais marcantes da vida.

Sobre o Autor

Gerson Menezes
Gerson Menezes

Gerson Menezes é escritor, jornalista aposentado com mais de 40 anos de atividade (especialmente nas áreas de Política, de Economia e de assessoria de Imprensa), empresário, ex-professor universitário, empreendedor digital e youtuber. (Mais informações no Menu do Rodapé)

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